Os búzios eram nas trevas
nas trevas brilharam olhos
os olhos rasgaram
águas
as águas encheram ventres
os ventres criaram filhos
os filhos
comeram terra
a terra deu logo bichas
as bichas pariram bichos
os
bichos pejaram ruas
nas ruas nasceram casas
das casas saíram braços
os
braços treparam muros
os muros prenderam bocas
as bocas disseram
vozes
as vozes gritaram gritos
os gritos tornaram vozes
as vozes
passaram muros
dos muros vieram braços
os braços ruíram casas
as casas
fizeram ruas
nas ruas havia bichos
os bichos furaram terras
das terras
surgiram filhos
os filhos só tinham ventres
os ventres traziam água
a
água tapou os olhos
os olhos ficaram trevas
nas trevas cantaram
búzios.
António Aragão

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